17 abril 2006

Futebol a serviço da vida

Em abril deste ano (2006), tive a oportunidade de participar da segunda etapa de um treinamento em comunicação pela Federação Luterana Mundial, realizado em San José, Costa Rica. Lá, conhecemos alguns trabalhos realizados pela Igreja Luterana especialmente os desenvolvidos dentro de áreas consideradas de risco que são as favelas locais.

Dentro dos vários projetos apresentados, um me chamou a atenção e acabei escrevendo sobre para uma revista aqui do Brasil que se chama Novolhar. Segue abaixo o texto.

Futebol a serviço da vida

Para a juventude pobre e de bairros marginais da Costa Rica existe uma esperança: É o projeto Fútbol por la Vida, que promove valores através do esporte, recreação, educação e desenvolvimento humano.

O programa nasceu em 2003 quando o técnico alemão Johan Gassep buscou o apoio do presidente da Igreja Luterana da Costa Rica, Melvin Jiménez, com a idéia de criar escolas de futebol para crianças e jovens carentes. A Igreja Luterana da Costa Rica tem como desafio e missão fazer-se presente na sociedade civil, acompanhando suas necessidades e buscando diálogo e soluções, dentro dos mais variados temas. Dentro desta postura, a igreja de pronto aceitou o desafio e colaborou ativamente na viabilização do projeto. A partir destas conversas, o Instituto de Educação e Desenvolvimento Sustentável (OIKOS) assumiu o desafio de iniciar os trabalhos nas zonas de risco social, em conjunto com a Agência de Cooperação Internacional alemã, “Pan para el Mundo”, que dá aporte econômico ao projeto.

Fútbol por la Vida representa para as crianças e jovens carentes ajuda concreta no seu desenvolvimento pessoal e coletivo através da prática do futebol, que incentiva todos a enfrentarem, de cabeça erguida, os problemas e desafios que sua realidade social impõe.

Segundo Roy Arias Cruz, um dos coordenadores gerais do projeto, “O futebol tem o poder de mover as massas, fascinar, emocionar. Por isso, os treinamentos tornam-se um espaço de aprendizado privilegiado, sempre acompanhado por profissionais. Neles discutimos temas dos mais variados como sexo, drogas, pobreza, violência e exclusão social, buscando sempre o desenvolvimento físico e psico-social”.

As primeiras atividades ocorreram em 24 de abril de 2004, atendendo cerca de 200 crianças. Hoje, o programa contribui para a formação de mais de 600 crianças e conta com o apoio e participação de voluntários e profissionais de diversos países, além da própria comunidade.

O brasileiro Felipe Rossi Schmechel, de 22 anos, integra a equipe de voluntários do projeto e nos concedeu a seguinte entrevista:

Josias: Qual é o foco do projeto Fútbol por la Vida?

Felipe: A Costa Rica sempre foi conhecida por seu grande exemplo político e democrático na América Latina. Apesar de gozar uma certa estabilidade econômica, sendo o país mais rico da América Central, dos anos 80 pra cá a situação vem piorando drasticamente. A diferença social vem aumentando cada vez mais e, em parte, isso se deve à imigração incontrolável de nicaragüenses que vem ao país em busca de melhores oportunidades de trabalho. Estes imigrantes não tem sido aceitos pela sociedade costarriquenha e acabam se concentrando em assentamentos que mais se parecem com as favelas brasileiras. O foco do projeto é justamente trabalhar com os filhos destes imigrantes, os quais são muito discriminados, bem como com jovens costarriquenhos, ambos vivendo em situação de extrema pobreza.

Josias: O que lhe motivou a ser voluntário neste projeto?

Felipe: Me identifico muito com estes imigrantes. Suas vidas e histórias incríveis me sensibilizam. Aqui aprendi a valorizar a história de nossos imigrantes no sul do Brasil. Eu, como muitos sulistas, sou descendente de imigrantes pobres europeus que chegaram no Brasil com esperança de encontrarem melhores condições de vida. Migrar é sofrido, dolorido e todos os migrantes carregam em suas vidas marcas e saudade do que se deixou para trás. Estou aqui na esperança de poder contribuir de alguma forma para uma vida melhor a estas crianças e jovens.

Josias: De que forma pode-se ajudar estas crianças?

Felipe: Na minha experiência pessoal, embora contribua nos treinamentos, tenho uma função mais de amigo do que de técnico. Confesso que, apesar de nossa paixão nacional pelo futebol, não fazia idéia do fenômeno que é o futebol, e em especial, o futebol brasileiro no mundo. Quando conto aos pequenos que vi pessoalmente Ronaldinho Gaúcho jogando no Olímpico, seus olhos se paralisam. É uma paixão. O futebol move estas crianças, permitindo que sonhem, e nos permitindo ensinar-lhes valores como amizade e companheirismo, entre outros. Não podemos resolver a imensidade de problemas que estas crianças tem, mas podemos sim, estender-lhes a mão e abrir seus horizontes para que lutem e vençam as dificuldades que a vida lhes impôs.